Entrevistas

“Bauman só podia estar de acordo com um papa como Francisco”. Entrevista com com Gianni Vattimo

28 Abril 2017 Escrito por  Gianni Vattimo, filósofo italiano, em entrevista de Stefano Caselli, publicada por il Fatto Quotidiano, 10-01-2017. A tradução é de IHU On-Line.

Professor Vattimo, o que Bauman representou para a nossa época?

Sem dúvida, foi um dos grandes intelectuais europeus capaz de fazer grandes sínteses. Não há muitos. Sinto-o muito próximo porque em 1972, quando estive nos EUA para ministrar os primeiros curso de Hermenêutica – que ninguém sabia do que se tratava – os únicos textos na New York Public Library que tratavam de hermenêutica e interpretação eram os de Zygmunt Bauman, um verdadeiro sociólogo-filósofo.

A sua síntese, a sociedade líquida...

Sim, ainda que para sejamos verdadeiros trata-se também de um conceito líquido, um tanto quanto difícil de acolher. Imagino que a sua tentativa era explicar a pós-modernidade na ausência de uma sociedade com referências estáveis fixas, as profissões, as competências, as especializações. Mas uma coisa sempre me inquietou...

O que?

Nunca entendi se para apreciava esta pós-modernidade ou não, parece que nunca a avaliou. A ausência de referências estáveis, de figuras sociais definidas, da divisão em classes e da rigidez das relações familiares típicas da modernidade – que, recordemos, era considerada por ele como a causa das ideologias totalitárias do século XX – simplesmente é descrita como um dado de fato. A liquidez não é um alarme, é uma leitura. Um outro elemento do seu pensamento, tem a ver com o conceito de ética. Para Bauman, a ética coincide com o colocar-se à disposição do outro, também – e sobretudo – fora das estruturas sociais ‘líquidas’. Uma visão bastante otimista da pessoa como ‘eu moral’ a serviço do próximo espoliado de todas as qualificações sociais. Na prática a sociedade líquida deveria ser aquela onde contam menos as pessoas e mais o ‘eu’, menos os papéis, as funções, mais o indivíduo. Positivo? Talvez, mas eu nunca o entendi até o fundo.

Os conceitos de liquidez e pós-modernidade podem ser incluídos no debate sobre a ‘pós-verdade’ tão em moda neste início de 2017?

Pode ser que a pós-verdade seja um conceito líquido. Eu, contudo, chamo a atenção para o problema da interpretação: não me escandaliza que a verdade não seja válida para sempre, basta que seja fundada na coincidência de interpretações. A verdade é uma interpretação compartilhada, não indivisa, mas é impossível que seja definitiva e compartilhada por todos.

Sempre houve a autoridade, menos a verdade. A verdade absoluta é relacionada com o poder. Quanto ouço dizer “minha senhora, não existe mais religião” respondo “Não, minha senhora, não há mais poder, não podemos mais impor”.

Nos últimos tempos ele estava de acordo com o papa Francisco. No entanto, Bauman era de formação marxista. Também este é um sinal de pós-modernidade?

Só podia estar de acordo com um papa como Francisco. Digamos a verdade, Francisco é hoje o guia de uma igreja onde – ao menos nas intenções do seu pontífice – a verdade não é mais dogmática, mas é a participação caritativa de muitos. A caridade, antes de tudo. Não é por acaso que Francisco é a única voz radicalmente a favor da acolhida dos migrantes. Um tema que para Bauman era muito importante.

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