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A primavera do Papa aposta na desclericalização das ordens religiosas. Proposta da família franciscana entusiasma Francisco

28 Abril 2017 Escrito por  Cameron Doody, publicada por Religión Digital, 21-04-2017. A tradução é de André Langer por IHU.

“Solicitamos-lhe formalmente uma dispensa... (que) permitiria aos irmãos leigos (não clérigos) serem guardiões de uma fraternidade local, provinciais e inclusive ministro geral. Todos os papéis de serviço na Ordem”. Dessa maneira Michael Perry, ministro geral da Ordem dos Frades Menores, resumiu o pedido que fez ao papa no começo deste mês, junto com os ministros gerais dos Conventuais, dos Capuchinhos e da Terceira Ordem. Uma proposta que entusiasmou o Bispo de Roma, acrescentou Perry, que “está estudando conosco as possibilidades de concretizar este projeto”.

E agora, em uma nova entrevista ao CNS (Catholic News Service), Perry deu mais detalhes sobre o que motivou este pedido dos franciscanos e sobre quais seriam as implicações para a liderança, a autoridade e o governo na Igreja inteira no caso de a proposta finalmente ser aprovada.

Em sua raiz, explicou o padre Perry, o pedido parte de uma preocupação sobre o significado da liderança entre as comunidades franciscanas. “A liderança trata de organizar as coisas de tal modo que tem o controle absoluto sobre tudo?”, perguntou. “Ou, ao contrário, trata-se de empoderar as pessoas para que haja sinergia, uma confluência de todas as fortalezas que tem uma comunidade?”

Tem que ser claramente a segunda opção, matizou, e, além disso, preservando a identidade do ministério ordenado. A proposta feita ao Papa, esclareceu, “não pretende desafiar a autoridade espiritual ou o papel do pastor. Pelo contrário, busca liberar o pastor para que se fixe nas ovelhas e não tenha que se preocupar com as portas e as cercas”.

Trata-se, enfim, de realizar o ideal de liderança sonhado pelo próprio Poverello de Assis, que também não foi clérigo, mas um humilde leigo. A proposta franciscana, relatou Perry, é a de realizar entre todos os irmãos, ordenados ou não, o ideal da “menoridade”: o de não querer “subir”, mas “descer”. Esta menoridade é diametralmente oposta ao clericalismo, segundo retratou Perry.

O clericalismo, disse o religioso, “é um impulso para cima, como se a mobilidade ascendente oferecesse algo: alguma segurança e garantia de fidelidade, uma maneira de controlar as pessoas de modo que permaneçam fiéis à verdade”. Ao contrário, “os franciscanos não concebem a (liderança) desta forma”, acrescentou.

Além disso, segundo Perry, “o clericalismo é um sinal de falta de fé, de falta de confiança: em Deus, nos outros e, em última instância, em si mesmo”. Um modelo que, enfim, não “pisoteou” apenas a dignidade, os dons, as habilidades e o chamado ao serviço de todos os batizados, mas que, às vezes – e longe de estimular os talentos –, “premiou a inépcia”.

Massimo Faggioli, historiador da Igreja e professor de Teologia na Universidade de Villanova, destacou ao CNS o que está em jogo na proposta dos franciscanos de que os irmãos leigos assumam cargos de responsabilidade nas quatro ordens. Se o Papa lhes conceder a dispensa, disse, “isso assinalaria à Igreja inteira uma mudança, no sentido de uma desclericalização das ordens religiosas e um retorno à inspiração original de seus fundadores”. O padre Perry concorda em semelhante avaliação ao considerar que a visão do Poverello constitui um desafio para toda a Igreja.

“São Francisco de Assis chamou a um novo modelo”, explicou por último o religioso. “Um modelo que não desafiaria de forma alguma a natureza da Igreja e os diferentes papéis que nela existem, mas lhe recordaria que todos estes estão a serviço de algo mais sublime, maior”, disse.

A desclericalização a serviço da unificação franciscana

Além de servir como modelo para a Igreja universal, o impulso que a família franciscana está dando à desclericalização pode ajudar inclusive a unificar os quatro ramos que atualmente o compõem. É o que se desprende de comentários feitos por Perry e seus irmãos ministros gerais à Rádio Vaticano logo depois da sua audiência com o Papa no começo deste mês.

O responsável pela Terceira Ordem Regular, Nicholas Edward Polichnowski, por sua vez, declarou que o Papa disse aos quatro ministros gerais que “necessitamos de um senso de unificação. Na família franciscana estamos agora fazendo apenas um movimento nessa direção”.

Este passo rumo à unidade só foi possível neste pontificado, acrescentou, já que “antes, os frades menores, os conventuais, os capuchinhos e a Terceira Ordem, eram independentes uma da outra”. Agora, precisou, “com o Papa Francisco vive-se uma visão, uma atmosfera de unificação, sob a ação da misericórdia”.

Em suas declarações, o padre Perry especificou em que consistiram as diversas iniciativas rumo à unificação que o Papa Francisco inspirou às quatro ordens franciscanas. “Em primeiro lugar, estamos em um processo de reunificação da Universidade Franciscana de Roma”, recordou o ministro geral dos Frades Menores. “Depois, há outros projetos para a comunhão na Terra Santa e outros lugares” e o diálogo que os diferentes responsáveis mantêm “várias vezes ao ano para fortalecer e insistir na dimensão de comunhão entre nós”.

Este é o estímulo que o Papa Francisco deu aos franciscanos para que trabalhem pela unidade, que, segundo o ministro geral dos capuchinhos, Mauro Johri, os frades o convidaram para reunir-se este ano para a comemoração da aprovação da sua Regra, no próximo dia 29 de novembro. “Especialmente porque este ano se recorda a bula Ite vos que buscava a unificação e acabou provocando a separação”, assinalou Johri. “E nós queremos recordar aquele evento fazendo um caminho, ao contrário, da união”.

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